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Vítor Poças, presidente da AIMMP, alerta

Indústria de madeira e mobiliário tem falta de mão de obra qualificada

As indústrias de madeira e mobiliário têm aumentado e diversificado as suas exportações nos últimos anos. No entanto, também se colocam desafios importantes ao setor, como a escassez de matéria-prima nacional e de mão de obra qualificada, bem como elevados custos de contexto. “Este é um setor que o país teima em não acarinhar transversalmente” – referiu em entrevista à Vida Económica Vítor Poças, presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário de Portugal (AIMMP). 

Vida Económica - Qual a atual situação geral do mercado da madeira e do mobiliário?
Vítor Poças - A evolução do mercado da madeira e mobiliário tem sido muito positiva, sobretudo no que diz respeito ao volume de exportações do setor que, nos últimos 12 anos, apresentou um crescimento verdadeiramente notável, passando de 1,5 mil milhões em 2010 para mais de três mil milhões em 2022. Num panorama mais recente, ainda só temos dados oficiais até novembro de 2023, o setor apresenta um crescimento global das suas exportações de 4,6% em comparação com o mesmo período do ano anterior, sendo que esperamos alcançar um record histórico de 3170 milhões de euros no final do ano. Neste contexto, destacamos o crescimento das exportações de mobiliário, colchoaria e iluminação, que cresceram 11% em 2023 e uma relevante desaceleração das importações do setor, na casa dos 5,6%, com destaque para a redução das importações de madeiras e suas obras de 11%, levando a uma retoma na subida do saldo da balança comercial para mais de 400 milhões de euros no ano passado. 
Outro importante indicador de sucesso diz respeito ao destino das exportações.Na realidade, além do crescimento das exportações, tem-se verificado um alargamento dos mercados destino com um crescimento significativo de países fora dos mercados tradicionais da Europa, com um peso de 35% do volume total das exportações. É importante a diversificação dos mercados e a AIMMP tem liderado esforços pioneiros nesse sentido, expandindo as suas iniciativas de promoção fora da Europa, quer no Médio Oriente quer nos Estados Unidos, por serem mercados com um grande potencial de crescimento para as exportações nacionais.

VE - Quais os principais problemas que se colocam às empresas do setor?
VP - O setor tem desafios, alguns deles específicos do setor da madeira e mobiliário e/ou dos seus sub-setores, muito concretamente no que diz respeito à escassez de matéria-prima de origem nacional e de mão de obra qualificada, bem como dos custos de contexto para um setor industrial que, do nosso ponto de vista, o país teima em não acarinhar transversalmente, como a carga fiscal desproporcional sobre os rendimentos de quem trabalha, problemas de licenciamento industrial, burocracias, ineficiência de funcionamento do Estado em razão de celeridade de processos, desmotivação das pessoas, escassez de meios e ausência de proximidade para resolução de problemas concretos das pessoas e das empresas que poderiam catapultar o crescimento económico. 
 
VE - As empresas estão a fazer um esforço no sentido da internacionalização?
VP - Sim, sem dúvida. Portugal é um mercado de pequena dimensão pelo que o crescimento das empresas passa pelo aumento das exportações, numa primeira fase, e pela sua internacionalização quando adequada, constituindo uma quase obrigação como forma de ganharem volume de vendas. Por outro lado, normalmente a exportação e a internacionalização permitem às empresas uma maior rentabilidade associada a uma maior valorização do produto, pelo que esta estratégia é seguida e constitui uma aposta das empresas nacionais e do setor. A AIMMP tem um papel determinante no apoio às empresas na sua estratégia de promoção internacional, nomeadamente a participação em feiras internacionais como iniciativa muito importante. O projeto conjunto InterWood&Furniture de apoio à internacionalização tem sido promovido pela AIMMP e surge como uma peça-chave nesse esforço, permitindo que as empresas expandam as suas fronteiras com um apoio financeiro significativo.
 
Concorrência desafiante
 
VE - Até que ponto a concorrência de países terceiros está a penalizar as empresas nacionais?
VP - A concorrência é sempre desafiante, mas é também uma forma de desenvolver e estimular os mercados a um desenvolvimento maior. Os empresários portugueses têm sabido responder a este estímulo através da inovação de produto, do design para a sustentabilidade, pela criação de marcas e assegurando a qualidade de sempre da nossa indústria.  Portugal tem vindo a fazer um trajeto de enorme sucesso no valor da Marca Portugal, incluindo a promoção da fileira casa através da marca chapéu “ASSOCIATIVE DESIGN – THE BEST OF PORTUGAL”, a qual tem permitido alcançar grande protagonismo para os produtos e marcas que visam e incorporam a inovação, a tecnologia, o design e a sustentabilidade. O nosso setor é um caso de sucesso com várias marcas a concorrerem a nível mundial com os grandes players internacionais. 
 
VE - Tem havido problemas no fornecimento das matérias-primas?
VP - Sim, a questão da matéria-prima é crítica e penaliza a competitividade das nossas empresas. Portugal teima em não promover a exploração profissional da nossa floresta, fazendo uma gestão quase ruinosa da mesma e isso, obviamente, obriga à importação de enormes quantidades de matérias-primas, com todos os custos de transporte e de logística implícitos, e isso sem dúvida que afeta toda a fileira. Este fornecimento que já era difícil veio a ser agravado com os incêndios de grande dimensão ocorridos nos últimos cinco anos e, agora, com o surgimento da guerra na Ucrânia. 
 
VE - Apesar da carga fiscal a que estão sujeitas, as empresas estão mais competitivas?
VP - A melhoria da competitividade das empresas tem sido possível graças à modernização tecnológica das empresas, aumento da dimensão média das mesmas, com ganhos e economias de escala, melhoria da qualidade da gestão e pelo esforço de valorização dos produtos, nomeadamente ao nível do design e uso de marcas. A carga  fiscal é muito pesada em Portugal e inibe a iniciativa empresarial, as empresas dão um contributo fundamental ao desenvolvimento socio-económico do país e, nessa medida, a melhoria da sua competitividade através da redução da carga fiscal seria muito importante. 
 
VE - Os fundos comunitários estão a ser aproveitados?
VP - Ao nível de projetos financiados, a AIMMP tem neste momento dois projetos principais em curso. O InterWood&Furniture vocacionado para o apoio às iniciativas de promoção internacional dos produtos e das empresas do setor e o novo projeto DecarbWood, cujo objetivo é o de criar um Roteiro para a Descarbonização das Indústrias de Madeira, abordando o tema da descarbonização, que é hoje uma questão essencial no funcionamento das empresas e do mundo em geral. A Indústria de Madeira e Mobiliário está bem posicionada na questão das emissões de carbono, pelas caraterísticas da sua matéria-prima principal – a madeira - mas são possíveis otimizações que este roteiro vem propor. A sustentabilidade é hoje uma questão importante para as empresas e, como tal, a AIMMP assumiu a liderança e mobilização do setor das madeiras e mobiliário num tema da maior relevância na atualidade. 
08/02/2024
 
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